
Entre o diploma e a pauta
Faltava menos de uma hora para a cerimônia de premiação. Meu pai montava um set de gravação junto a Cid Ramos, seu assim denominado “companheiro de guerra”. Tudo bem. O auditório era ao lado, a menos de dois metros, e sobrava tempo para que nos posicionássemos.
Antonio Pastori, com olhar teimoso, rodava aquele mezanino da Escola Politécnica da Bahia como se não fosse, agora há menos de meia hora, ser homenageado junto a outros nomes laureados daquela Universidade Federal. Alertei, novamente, ao tempo e à necessidade de nos apresentarmos à equipe cerimonial.
Não acredito que ele sequer tenha me ouvido. Estava no afã de uma negociação de uma entrevista.
Tudo bem. Ainda dava tempo.
Faltando vinte minutos, meu pai disse que iria se arrumar.
Que bom, pensei.
Ele entrou num dos banheiros, e, no instantes nos quais eu lia um breve texto que tinha de aprovar, de repente me apareceu de camisa marrom, calça de linho bege oversized e sandálias de couro - as mesmas que eu tinha certeza que seriam trocadas.
Há alguns anos, eu confrontaria aquele poeta inveterado sobre a vestimenta, o protocolo, a cerimônia, a foto! Mas, com o tempo, entendi que aquele figurino fazia parte da razão da própria homenagem: Antonio Pastori ser quem é.
Já com a cerimônia começada, meu pai entrou no auditório com um suporte de gravação em riste - talvez sem sequer perceber que, naquele momento, ele era mais homenageado do que jornalista.
“Eu faço, meu pai”, tranquilizei. Até porque, pela ordem alfabética adotada, ele seria o primeiro a ser chamado ao palco. Antonio Pastori assentiu. Ouviu os discursos iniciais, e, por alguns poucos minutos, chegou a me parecer mais o premiado do que um repórter numa cobertura.
O mestre de cerimônias anunciou o nome, o prêmio e a exaltação às suas contribuições para a educação baiana. A plateia aplaudiu. Minha sensação foi de que, apenas naquele instante, meu pai se deu conta de seu real papel e importância diante de algumas das principais autoridades acadêmicas do estado.
Antonio Pastori cumprimentou a mesa, beijou fraternalmente a professora a lhe entregar o diploma e a medalha, assentiu à plateia pelos aplausos. Enchi meu peito de emoção. É um reconhecimento merecido.
Mas não tive muito tempo para esse exercício.
Como que mágica, o mesmo que estava no palco voltou aos registros da reportagem.
O que me levou ao dilema e à crônica. Porque, até agora, não sei qual das facetas desse poeta me traz mais orgulho.
